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Relato e reflexões de uma experiência de Educação Ambiental

Por Mateus Raymundo da Silva

Durante os meses de junho à dezembro de 2010 fui oficineiro do Programa Mais Educação na EMEF Afonso Guerreiro Lima, localizada no bairro Lomba do Pinheiro, na cidade de Porto Alegre/RS -Brasil, realizando atividades relacionadas ao Macrocampo de Educação Ambiental.

Alunos (as) da EMEF Afonso Guerreiro Lima

Desde o primeiro dia de aula disse as crianças que nossas atividades seriam práticas e dinâmicas. O verbo “fazer” seria levado à cabo.

Nesse sentido, o uso adequado e seguro das ferramentas foi um ponto desenvolvido com muita atenção. Tínhamos como regras básicas não correr com as ferramentas, conduzí-las com as lâminas viradas para baixo e manter a atenção à postura corporal durante o movimento.

A segurança com as ferramentas e a atenção à postura durante o movimento

Apostei também no manejo de um jardim de plantas medicinais já existente na escola, construído em um curso de permacultura passado. Neste ambiente inúmeras atividades pude desenvolver como as podas e conduções racionais das plantas, a adubação e controle da fertilidade da terra, a produção de novas mudas a partir das plantas matrizes e de modo especial explorar o potencial medicinal e alimentício das plantas.

Aluna plantando aipim

Mexer com as plantas é também uma ação intuitiva. Sendo assim, depende de sensibilidadeatenção  e especialmente curiosidade. Na maioria das vezes  as  crianças realizam atos dispersos, desatentos e insensíveis. Conseguir desenvolver a  atenção delas só é possível levando à razão  a riqueza de vida existente em todos os elementos presentes na  horta.  É necessário despertarmos seu interesse, para que não apenas mexam com a Terra, mas para que sintam a Terra, e para isso, precisam  ser  provocados  a  entender as coisas da Terra.

Durante o projeto busquei articular educadores envolvidos com a rede popular e ambientalista.

Cacá – permacultor e membro do grupo Casa Tierra, Laura Inra – ambientalista do Núcleo Amigos da Terra Argentina e Edson – educador do Mais Educação

Visita da educadora Fernanda Poletto

Para as crianças, percebi que não há nada mais interessante que conhecer pessoas novas. Outros educadores/as, outras idéias, outras línguas… outros humores.

Nesta foto, percebemos a prática da ação concomitante entre as aulas de xadrez do professor Geraldo e a construção de um espiral de ervas feito com material reutilizado, organizado a partir das oficinas de Educação Ambiental.

Estas atividades demonstram a proposta de aula ao ar livre, onde os alunos conseguem descobrir novos espaços no pátio para realizarem suas atividades, dando mais valor a esta área imprescindível para a escola e para a qualidade da vida dos educandos.

É ao ar livre que a criança desenvolve suas percepções ambientais e espaciais, assim como desenvolve a sensibilidade para com as coisas reais da vida e, sendo assim, quando somamos diferentes atividades nestes espaços potencializamos a idéia.

Alguns elementos da agricultura ecológica foram desenvolvidos com os jovens. Nas fotos abaixo estão manuseando sementes de milhos crioulos, ou seja, sementes antigas, ancestrais, indígenas, nas quais a maioria da população nem mesmo sabem da sua existência nos dias de hoje.


 

 

 


Oficina de conhecimento das sementes tradicionais. A maioria dos jovens jamais havia visto um milho de origem crioula.

As sementes crioulas, adaptadas as regiões de origem e detentoras de genéticas milenares, já foram quase completamente substituídas por sementes das grandes corporações, ou, como é o caso do milho, mutaram-se geneticamente, configurando os atuais milhos transgênicos, os quais, até hoje, a ciência nem ao menos pode afirmar sua segurança para a saúde das futuras gerações.

Todos os jovens que participaram desta oficina impressionaram-se com as cores, as formas e os desenhos destes milhos. Divertiram-se com as possibilidades da natureza ao refletirem sobre as monoculturas presentes em nossos mercados monocriativos.

Os milhos destas fotos são guaranis e vieram do Paraguai. Expliquei-lhes que no Paraguai a maioria da população ainda fala o idioma indígena e que a cultura da Nação Guarani está viva por lá , como por aqui também, não somente com a permanência de suas sementes, mas com tantas outras coisas que resistiram ao tempo e permanecem vivas após tantos séculos de exclusões étnicas.

Mas, com certeza, a atividade desenvolvida que mais empolgou estes jovens e crianças foram as saídas a campo para uma área de mata nativa lindeira à escola. Nesta área está sendo construído um grande condomínio horizontal de moradias populares. Este empreendimento gerou forte impacto na paisagem da escola, suprimindo importantes áreas de vegetação nativa que sempre estiveram próximas a ela, portanto, pertencentes à paisagem mental de cada um dos alunos e professores. O que fizemos foi caminhar por estas áreas e percorrer os remanescentes que foram preservados. As turmas caminharam pelas matas, percebendo suas naturezas e realizaram  as atividades que propomos.

Nestas ocasiões pude perceber a profunda e patológica distância de cada aluno/a com o ambiente natural de sua região. Outro aspecto que observei foi o receio com que adentraram nesse meio: o medo de insetos, de perder-se do grupo, de cair ou de encontrar cobras foram recorrentes

Propus atividades de sensibilização. Fechamos os olhos, escutamos a natureza. Todos os elementos encontrados por eles eram estudados, foi dada a atenção necessária explicando suas origens, funções e categorias ecológicas. Vimos aves, ninhos de aves, insetos, fungos, frutos, espinhos, árvores, folhas, canais d’água, depósitos de areia, lixos, impactos realizados por máquinas do empreendimento. Tudo serviu como conteúdo para a discussão e a ampliação da paisagem mental dessas crianças, propondo o entendimento das conexões, ciclos e interconexões dos ecossistemas.

Apesar de alguns alunos/as terem vivido  em/ou muito próximo a uma mata nativa, a maioria jamais tinha tido esse contato, o que transformou essa atividade  em uma experiência única e transformadora.

No período final deste projeto, ao perguntar aos alunos quais as recordações, lembranças e experiências que mais os marcaram durante nossas oficinas, fiquei impressionado com a diversidade de cada explanação, com as múltiplas lembranças que cada criança no seu íntimo guardou para si ao ponto de querer compartilhá-las entre todos. É somente em uma conversa como esta, feita com a turma que já adquiriu experiências coletivas e na relação com o professor/a que percebemos o quanto o trabalho de fato modifica a percepção e visão de mundo dos alunos/as.

Quando realizamos uma avaliação final entre todos, um momento incomum, pois ficamos por mais tempo sentados – o que fugiu do costume durante o ano em que as experiências foram práticas, dinâmicas e físicas – percebemos que a turma dispôs da tranquilidade necessária para conduzir um bom diálogo onde todos se escutaram e demonstraram interesse em querer saber da história do outro.

Observei que dois fatores centrais permitiram o bom andamento deste projeto: as atividades realizadas com grupos pequenos – permitindo que naturalmente, de acordo com o humor do dia, sua motivação pessoal e suas próprias decisões, cada criança escolhesse a oficina na qual gostaria de participar. Respeitando esta lógica, evitamos boicotes de aula (ou seja, aquela criança que faz de tudo pra estragar com a brincadeira);  e o apoio de toda a escola especialmente dos funcionários da cozinha e limpeza. Estes atores escolares são os que manejam os principais materiais utilizados nas dinâmicas permaculturais: rejeitos de cozinha, folhas varridas do pátio; e dispõem-se a regar as plantas. Também são estes que tratam da alimentação, questão central para a compreensão de visão sistêmica de natureza, ou seja, através do estudo da alimentação discutimos saúde, qualidade de vida, medicinas naturais, integralidade do corpo… do ser.

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